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Reflexões sobre a fé › 10/01/2020

Jesus Cristo (Cristologia em Marcos)

Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 2020.

Iniciando as reflexões sobre Cristologia, os próximos quatro encontros serão dedicados aos textos dos evangelistas Marcos, Mateus, Lucas e João. Eles apresentam aspectos particulares sobre a pessoa, à mensagem e a Redenção em Jesus segundo o que lhes foi revelado, como fruto da experiência e vivência com o próprio Cristo e com a comunidade. Os Evangelhos permitem um melhor conhecimento sobre Jesus e a sua obra redentora segundo a catequese de cada autor.

Os escritores sagrados relatam sua fé na Pessoa e nas obras de Jesus em concepções diferentes, mas não antagônicas. Marcos, por exemplo, inicia sua caminhada missionária acompanhando Paulo e Barnabé (cf. At 15,36-41) e depois Pedro e Paulo (cf. At 15,13). Ele escreve para judeus e pagãos usando um caráter espontâneo, prático e vivo, que torna presente os mistérios da pessoa de Cristo. A crítica moderna aponta o seu livro como o mais antigo dos sinóticos. Por isso, ao invés da obra ser considerada abreviada, ela deve ser vista como base para Mateus e Lucas.

É um texto crível, muito próximo da história e da vida de Jesus, mais que os outros sinóticos. O autor coloca em relevo especial as características da autêntica humanidade e os afetos de Jesus. Ele geme e suspira profundamente: 7,34 e 8,12; se indigna e se entristece pela dureza de coração dos fariseus: 3,5; por entregar-se a sua missão não tem tempo de comer parecendo estar fora de si: 3,21; e demonstra amor as crianças: 9,36 e 10,16.

Marcos refere-se a Jesus com os títulos “Filho do Homem” e “Filho de Deus”. No Antigo Testamento Filho do Homem, de cunho semita, era usado no sentido de homem. Ocorre 93 vezes em Ezequiel. Em Daniel já toma sentido messiânico para indicar o Homem-Rei, centro da humanidade e da história, que consuma a história (cf. Dn 7,13s “Eu continuava contemplando, nas minhas visões noturnas, quando notei, vindo sobre as nuvens do céu, um como Filho de Homem. Ele adiantou-se até o ancião e foi introduzido a sua presença. A ele foi outorgado o poder, a honra, e o reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram. Seu império é império eterno que jamais passará, e seu reino jamais será destruído”).

A expressão aparece nos textos de Marcos 14 vezes ditas pelos próprios lábios de Jesus (ipsissima verba Christi – as propriíssimas palavras de Jesus), denotando a Sua vontade de designar-se assim. O título significa o Messias, que goza de certos poderes: 1- perdoar os pecados como Deus os perdoa (cf. Mc 2,10 “Pois bem, para que saibas que o Filho do Homem tem poder de perdoar pecados na terra, eu te ordeno – disse ele ao paralítico – levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa”); 2- é Senhor do sábado como Deus é (cf. Mc 2,28 “de modo que o Filho do Homem é senhor até do sábado”); 3- consumará a história (cf. Mc 13,26 “E verão o Filho do Homem vindo entre nuvens com grande poder e glória”); 4- a glória do Messias (cf. 14,62 “Jesus respondeu: ‘Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado á direita do Poderoso e vindo com as nuvens do céu”). Ao usar essa expressão retirada da profecia de Daniel o evangelista quer confirmar Jesus como o Messias de forma concreta, indo ao encontro das expectativas dos judeus. Para o autor, Jesus é o Messias que já exerce sua missão e realiza obras poderosas.

Marcos associa o título “Filho do Homem”, expressão do poder e da glória do Messias, ao título “Servo de Javé”, para indicar a missão sofredora e expiatória de Jesus. Combinando os dois títulos, o autor indica a originalidade do Messianismo de Jesus, que não seria apenas uma afirmação de glória e poder como esperavam os judeus, mas implicaria também no sofrimento em expiação dos pecados dos homens (cf. Mc 8,31 “E começou a ensinar-lhes: ‘O Filho do homem dever sofrer muito, ser rejeitado pelos anciões, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar’”; ver ainda 9,9-12; 9,31; 10,33; 10,45; e 14,21-41).
Em Mc 10,45 (“Pois o filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”) são fundidos numa só sentença esses dois títulos: “Filho do Homem” e “Servo de Javé”. Mas, há uma diferença entre Jesus Messias de Marcos e o de Dn 7,13s. Ao passo que este é uma personagem um tanto vaga, que aparecerá no futuro, consumando a história, Jesus Filho do Homem é uma figura muito concreta, que desde já exerce a sua missão e realiza obras extraordinárias. O Messianismo de Jesus purifica e enriquece o conteúdo das expectativas dos judeus.

O título “Filho de Deus” é o que melhor caracteriza a obra do evangelista, exprimindo a sua fé em Jesus (cf. Mc 1,1 “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”). Em outros textos, são pessoas que declaram ser Jesus o “Filho de Deus”, numa demonstração de fé (cf. 3,11“E os espíritos impuros, assim que o viam, caíam a seus pés e gritavam: ‘Tu és o Filho de Deus’”; 5,7 “clamando em voz alta: ‘Que queres de mim, Jesus, filho do Deus altíssimo?’; e 15,39 “O centurião, que se achava bem defronte dele, vendo que havia expirado desse modo, disse: ‘Verdadeiramente este homem era filho de Deus’”). No Batismo e na Transfiguração é o Pai, ou seja, Deus, que aponta Jesus como seu “Filho amado” (cf. Mc 1,11 “e uma voz veio do céu: ‘Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo’”; Mc 9,7 “E uma nuvem desceu, cobrindo-os com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: ‘Este é o meu Filho amado; ouvi-o’”).

Já em outro momento é o próprio Jesus que responde afirmativamente ao Sumo Sacerdote sobre sua identidade atribuída pelo título (cf. Mc 14,61s “Ele, porém, ficou calado e nada respondeu. O Sumo Sacerdote o interrogou de novo: ‘És tu o Messias, o Filho de Deus Bendito?’ Jesus respondeu: ‘Eu sou’”). Dessa forma Jesus revelava plenamente seu mistério após as cautelas devidas para não ser mal entendido, ou seja, como o Messias político.
Por isso, é notável a imposição do segredo messiânico por Jesus, que queria evitar falsas interpretações do seu Messianismo. Neste contexto, Ele não aplica a si o título de Messias, mesmo atuando como o próprio, como se depreende da entrada triunfante em Jerusalém (11,1-11) e na perícope sobre as diversas curas (cf. 1,32-34). Quando alguém lhe confessava o título de Messias, era imposto pelo próprio Jesus o silêncio, como na cura de um leproso em 1,40-45, na cura de um surdo-gago em 7,31-37 e na cura de um cego em Betasaida em 8,22-26. Isso porque o Messias para os judeus teria um caráter político e nacionalista, que não condizia com a missão de Jesus.

O evangelista acentua muito as dificuldades de compreensão dos discípulos, muito impregnados de concepções meramente humanas: Mc 4,10-13 “Quando ficaram sozinhos, os que estavam junto dele com os Doze o interrogaram sobre as parábolas. Dizia-lhes: ‘A vós foi dado o mistério do Reino de Deus; aos de fora, porém, tudo acontece em parábolas, a fim de que por mais que olhem, não vejam; por mais que escutem, não entendam; para que não se convertam e não sejam perdoados’”; 6, 52 “pois não tinham entendido nada a respeito dos pães, mas seu coração estava endurecido”; ver ainda 7,17-23; 8, 17-21.

Contudo, a imposição do segredo messiânico não era tal que impedisse os discípulos de reconhecerem paulatinamente a identidade messiânica de Jesus. Ela foi sendo revelada, como a confessou Pedro em Cesaréia de Filipe (cf. Mc 8,29s “‘E vós, perguntou ele, quem dizeis que eu sou?’ Pedro respondeu: ‘Tu és o Cristo’. Então proibiu-os severamente de falar a alguém a seu respeito”). Já no final do seu ministério, é justamente por atribuir a si as funções de Messias e de Filho de Deus que Jesus sofre sua Paixão e Morte (cf. Mc 14,61-64).

Para Marcos os milagres de Jesus não são mera ficção e tem a finalidade de apontá-Lo como Deus. Assim, Ele revelava seu poder e seu ser divino, como no relato sobre a cura do paralítico, perdoando o pecado, obra própria de Deus (cf. Mc 2,1-12). O evangelista relata 19 outros milagres de Jesus, evidenciando o domínio sobre a natureza (a tempestade acalmada em Mc 4,35-41; as enfermidades curadas na região de Genesaré em Mc 6,56; na morte com o retorno a vida da filha do chefe da sinagoga em 5,21-43). Dessa forma, o evangelista aponta Jesus como homem que atua como Deus afirmando as duas naturezas Nele: a humana – o seu ser humano e a divina – o seu ser divino.

Se Jesus não tivesse feito milagres impressionantes, não se explicariam vários tópicos dos Evangelhos: o entusiasmo do povo por Jesus, a fé dos Apóstolos no Messianismo, a decisão dos sacerdotes e fariseus de eliminá-lo precisamente porque realizava prodígios e vinha a ser uma ameaça para o poder deles e a íntima relação existente entre as “pretensões” de Jesus (de ser o Messias e o Filho de Deus revelado pelos milagres-sinais por Ele efetuados).

Os reais milagres de Jesus possibilitaram a São Pedro, no seu primeiro discurso evangelizador após Pentecostes, citá-los como depósito da fé da Igreja nascente. Pedro estava ciente de que nem os inimigos de Jesus poderiam negar que Ele curava enfermo e expulsava demônios por se tratarem de acontecimentos reais (cf. At 2,22). Em At 5,38s Gamaliel diz aos colegas do Sinédrio ou Supremo Tribunal, que procuravam argumentos para acusar os cristãos, que se a obra de Jesus não fosse obra de Deus se destruiria por si só.

A Soteriologia em Marcos aponta dois principais aspectos: 1- o perdão e destruição do poder do pecado; 2- a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus como parte do plano salvífico de Deus. Muitos dos milagres de Jesus se relacionam com exorcismo. Por conseguinte, Jesus, ao expulsá-los dos homens, indicava o fim do reino de Satanás na terra e a vinda do Reino de Deus (cf. Mc 3,22-27). Os demônios não só eram expulsos, mas Jesus efetivamente também perdoava os pecados diretamente (Mc 2,5-11) ou participando de refeições com os pecadores (para os judeus, a refeição significava comunhão de vida). Ele mesmo afirma que veio para os pecadores e para os enfermos que precisavam de médico (Mc 3,17).

Não se deve negar a historicidade de tais episódios, como se o demônio e a possessão diabólica fossem irreais. Os demônios na Sagrada Escritura são tidos como o “Príncipe deste mundo” (cf. Jo 12,31 “É agora o julgamento desse mundo, agora o príncipe desse mundo será lançado abaixo”.), “o deus deste mundo” (cf. 2Cor 4,4 “para os incrédulos o deus deste mundo obscureceu a inteligência, a fim de que não vejam brilhar a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus’.).

Na Soteriologia da Paixão, Morte e Ressurreição à morte de Jesus tem sentido amplo, já esboçado em profecias do Antigo Testamento. Jesus não morreu só porque se incompatibilizou com os fariseus e doutores da lei. Em Israel, antes de Jesus, já havia a profecia do Servo Sofredor (cf. Is 52,13-53,12) em resgate dos pecados (cf. Mc 10,45). A própria instituição da Eucaristia aponta para um sacrifício de resgate (cf. Mc 14,22 que faz eco a Is 53,11). O sangue de Jesus conscientemente derramado em sacrifício substitui o de animais irracionais da Antiga Aliança (cf. Ex 24,8), inaugurando uma nova e definitiva Aliança.

Resumindo: Marcos é o evangelista que mais destaca a humanidade de Jesus. Apresenta Jesus com os títulos de Filho do Homem e Filho de Deus, associando este ao Servo Sofredor. Marcos não só aponta Jesus como o Messias, destacando o segredo messiânico, como também dá relevo a sua morte como sendo necessária. Marcos não tem dúvidas de que Jesus é Deus.

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